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Entrevista com CRISTAL MUNIZ, do livro e blog 'Uma Vida sem Lixo'

Escolhemos a entrevista com a Cristal Muniz para estrear nosso blog aqui na Minimall porque tem tudo a ver com nossa filosofia na busca de meios inteligentes para cuidar melhor de nosso planeta e sermos sustentáveis efetivamente.


Nada melhor do que conversar com alguém que vai além da teoria, parte pra ação e se torna exemplo!


Cristal Muniz gosta muito de comunicação visual e escrita, por isso se formou em Design Gráfico e passou por Jornalismo, mas também gosta muito de alimentação e por isso, atualmente estuda Nutrição.

Sempre preocupada com o meio ambiente, contou pra gente que desde a infância foi próxima e sensível aos animais e à natureza.


Então, bora conferir essa conversa pra lá de interessante!




O que motivou reduzir sua produção de lixo no dia a dia?


Cristal: Eu sempre morei com várias pessoas e quando fui morar sozinha, me dei conta do quanto de lixo eu produzia; na época era estudante, não tinha dinheiro pra comprar muita coisa, eu comprava bem pouca comida porque almoçava no trabalho, basicamente tomava café da manhã e jantava em casa e mesmo assim gerava um monte de resíduo e eu ficava muito impressionada, gerava sacos e sacos de lixo, começou a me incomodar bastante.


O lixo nunca fez muito sentido, eu sempre achava muito esquisito, ter que jogar fora coisas, embalagens boas, plástico duro, mas descobri mesmo o movimento lixo zero através de uma amiga que compartilhou uma matéria sobre a Lauren Singer do blog Trashers For Tossers e conheci essa possibilidade de viver produzindo o mínimo de lixo possível e como fazer isso na prática, trocar informações, diferente daquela abordagem que normalmente a gente tem no colégio, informações etéreas – proteja a floresta, o meio ambiente, mas não diz na prática o que você pode fazer na sua casa, né?


Então fui me conectando com todas essas coisas e descobrindo novas possibilidades, aí comecei o blog e o projeto para pôr tudo isso em prática.



Todas as alterações que você se propôs a realizar, você ainda as segue? Ou teve algo que você voltou atrás por não conseguir ter consistência?


Cristal: Eu não voltei atrás em nada, mas adaptei algumas coisas.

Por exemplo: Cosméticos. A minha ideia no começo era usar o mínimo possível, usar todos sólidos, mas pesquisando e adaptando às minhas necessidades, porém percebi que não consigo usar pouca coisa pra minha pele.


Tenho uma pele muito sensível que requer cuidados específicos e acabo necessitando de produtos que não se produzem em casa.

Isso acaba gerando mais embalagens do que eu gostaria.


Sobre o uso de papel higiênico, ainda não tenho muita consistência pois alterno bastante, têm vezes que estou super adaptada com a toalhinha e não consigo usar o papel, outras vezes no frio recorro ao papel, não é exatamente voltar atrás, mas mexe bastante com minha disposição.


Uma coisa que talvez tenha mais a ver com voltar atrás, é sobre comprar comida embalada. Antes o foco era somente não ter embalagem. Depois, pesquisei e pensei sobre o que é mais importante: entre consumir alimentos orgânicos, ou alimentos à granel, afinal tudo é embalado de alguma maneira, mas por exemplo: prefiro comprar grãos (arroz, milho, feijão, farinha) em uma feira orgânica onde são embaladas do que à granel sem saber a procedência comprovada.


Na verdade, não é orgânico na loja a granel, né? Então, eu prefiro comprar o orgânico mesmo sendo embalado, porque o impacto na cadeia de produção desse alimento é menor do que o não orgânico.


E claro, também penso na minha saúde.

No geral sigo comprando o mínimo de coisas e evitando ao máximo embalagens.



Qual foi a sua maior dificuldade quando optou por fazer essa transição?


Cristal: Eu normalmente digo que eu não tive muitas dificuldades, fui fazendo uma coisa de cada vez, me dando tempo pra experimentar, me habituar e testar.

É um processo que eu me permito até hoje.

Sigo aprendendo e evoluindo.


Às vezes, não tinha uma opção melhor quando eu fiz a troca, e hoje em dia surge uma melhor sabe?

Então, me dei a possibilidade de que não fosse difícil, tornei confortável e com naturalidade.


Agora, uma dificuldade é a questão social, né?

Uma coisa que eu tinha muita vergonha (também por ser um tanto tímida) era pedir as coisas no meu saquinho, no meu potinho, no meu guardanapo, quando eu tinha que explicar muito.


Quando era uma coisa que eu tinha autonomia de ir, pegar, me servir, até ok, no caixa não era tanto problema mas quando tinha que explicar muito sobre ser uma forma de não envolver tanta embalagem, suava um pouco.


Hoje em dia já tô expert mas foi algo complicado naquele tempo.

Nunca tive problemas com amigos nesse ponto, eles acompanharam o nascimento do blog também, então havia interação sobre dúvidas, trocas de ideias.


Já na parte da família, especialmente de presentes, foi um pouco difícil por ser muito conectado à questões emocionais, difícil dizer “não” para a família, um dos 5 R’s que é recusar.


Você não quer magoar com a sua recusa mas ao mesmo tempo gostaria de ter essa liberdade em fazê-lo sem gerar um conflito, seja pela embalagem, seja por algo que não queira comer, enfim, apesar de ter um blog e um livro, sigo explicando, mas às vezes me vejo numa situação que gostaria de dizer não, trabalhando limites.



Há quanto tempo você já está nessa pegada de lixo zero?


Cristal: Comecei a reduzir o meu lixo no final de 2014.

Em seguida criei o blog e fui começando a fazer pequenas trocas.

Fiz meus primeiros guardanapos de pano com retalhos que tinha em casa lá pra 2015, são seis anos já.



Ainda hoje você encontra dificuldades?


Cristal: Falei anteriormente sobre a dificuldade de lidar com as pessoas, ainda existe um pouco disso, mas na parte de resíduos tem coisas que não evoluíram.

Existem coisas que ainda não possuem uma solução efetiva.

Itens que são embalados, que não possuem opção a granel, líquidos por exemplo.


Tenho cachorro e gato e nessa parte existem resíduos da embalagem de ração, o impacto da produção, também tem os saquinhos para coletar a sujeira dos cachorros. Os gatos têm caixinha de areia, embora use a madeira que é biodegradável e posso descartar no vaso mas ainda sim gerou embalagem de plástico.


Tem todo esse custo ambiental e tem que fazer o descarte desse resíduo.

Então, essas são coisas que ainda não consegui resolver.

Sempre penso muito na hora da compra.

Há também diversos itens que seguimos descartando ao longo da vida, primeiro porque vamos mudando com o tempo – nossos estilos, hábitos e necessidades.


Coisas que talvez achei que precisava há alguns anos atrás e hoje já não preciso mais. Por outro lado, muitas coisas temos que decidir se doamos, vendemos, onde descartamos, para onde levar, temos que descobrir o que fazer.


Então, eu acabo tendo essa dificuldade que eu sei que muitas outras pessoas também tem.

Qual é o melhor descarte, é uma coisa difícil mesmo de descobrir, porque a coleta seletiva é só pra um grupo muito pequeno de resíduos, né?


A maior parte do que a gente produz em casa não entra ali.

Coisas contínuas, tipo lâmpadas baterias, pilhas, esse tipo de coisa.

Enfim, acho que é um problema que tenho até hoje e acho que demora para solucionar.



Quando você escreveu seu livro “uma vida sem lixo”, você imaginava que ele teria as proporções de alcance que chegaram?


Cristal: Eu nunca sei muito bem como responder isso, porque eu não fiz o blog imaginando que teria muito sucesso.


Sempre tive blog desde muito nova, 11 ou 12 anos, naquele esquema diário virtual e tal.

Quando comecei o projeto Um ano sem lixo, foi meio que normal fazer um blog pra ele.


Hoje em dia as pessoas fazem uma conta no Instagram com o nome do projeto. Eu sou da época que se fazia blogs, que se tinha um wordpress, blogspot, algo assim.

Então foi muito natural pra mim, achei que fosse ficar restrito ao meu círculo, mas logo nas primeiras postagens havia comentários de pessoas que eu não fazia a menor ideia de quem eram e isso me deixou bastante surpresa.


Até hoje eu não tenho noção do alcance que eu tenho.


É tanta gente que eu já perdi de vista, são mais de 250 mil seguidores no Instagram, pra mim isso é um absurdo, não consigo nem entender, de uma forma real mesmo, porque é tão grande, não tem como a gente materializar esse número, né? E olhar pra ele, todas essas pessoas que estão atrás desse número.


Então, é muito doido.

Sobre o livro, eu acho que esperava um alcance maior do que sozinha conseguiria dar a ele.

Escolhi lançá-lo através de uma editora para que tivesse essa distribuição e logística. Para que pudesse chegar em todos os estados do Brasil e livrarias.

Era um desejo meu fazer o livro com uma editora, no caso, a Alaúde, para uma distribuição maior, pra sair da minha bolha.


Fico bastante feliz e espero que tenha cada vez mais alcance porque é um assunto que necessita que todo mundo fale e saiba, né?

Foi tudo um pouco inesperado mas fico muito contente e não apenas pelo reconhecimento do meu trabalho, mas pelo assunto em si.



Você tem alguma dica simples pra quem tá entrando nesse “universo” agora?


Cristal: Sim, eu tenho várias dicas (risos).

Esse é o assunto que eu mais gosto de falar!


Tem três coisas, que dá pra fazer e pra pensar:

Você quer reduzir seu lixo, quer ser mais sustentável, quer fazer ações que gerem menos impacto, né?

Olhando aí pra dentro da sua vida...

Começa pelo lixo que você mais detesta produzir, porque vai te dar uma satisfação muito grande quando conseguir deixar de gerar esses resíduos. Todos nós temos resíduos que achamos que é muito desperdício, ou nojento e desnecessário.

No meu caso, foi o lixo orgânico da cozinha e os absorventes, que eu também achava detestável todo mês ter que jogar todo aquele resíduo fora.

Dá muita satisfação vencer esses obstáculos.

Comece pelos que irão dar um resultado melhor, mais visível e vai ser muito satisfatório.


Substitua uma coisa por vez.

Espere-as acabarem.

Ao invés de querer comprar todos os produtos de limpeza e beleza ao mesmo tempo, evite estoque e não corra o risco de gerar desperdício.

Inclusive um amigo meu que se chama Laruz, escreveu textos maravilhosos sobre isso.


Fazer uma coisa de cada vez, escolher uma troca por vez, uma adaptação por vez, porque todas essas coisas envolvem um aprendizado do tamanho da sua idade que você tem nesse momento e que você precisa desaprender às vezes, você precisa reaprender, você precisa, né desfazer um hábito.


Isso tudo dá muito trabalho e é muito cansativo, então, escolha uma coisa de cada vez, vá de pouquinho em pouquinho.

Mas, tenha consistência.

Quando você se adaptar, escolhe uma coisa nova pra fazer, persista mesmo que dê errado, no outro dia você tenta novamente.


Eu errei muito, esqueci várias vezes de usar meu guardanapo de tecido no começo, mas a gente tá aprendendo, não tá acostumado e tem coisas que são tão automáticas que a gente não lembra mesmo.


E a terceira coisa é pedir ajuda, conversar com as pessoas sobre isso na internet, compartilhar, dividir isso com amigos, porque tem algumas coisas que talvez sejam difíceis e a ajuda de alguém que já testou muita coisa, como eu, pra dar uma opinião, ou um empurrãozinho de alguém que entenda mais o que você faz, que talvez não esteja na sua família e vice versa.

Essas 3 coisas são fundamentais e servem pra qualquer coisa na vida, estamos falando aqui sobre a questão do lixo, mas elas se encaixam muito bem.



Se você pudesse dar alguma dica ou conselho pra Cristal do passado, o que você falaria?


Cristal: Achei muito boa essa pergunta.


Acho que eu tive uma jornada bem feliz, sabe?

Desde o começo, decidi começar aos poucos, eu não sabia como fazer, então iria com calma para não me sobrecarregar, é claro que é algo que também faz parte do meu jeito de ser.

Por isso foi algo mais tranquilo, então daria o conselho de não ficar se comparando com os outros.

Esse é um problema que eu não tive tanto assim, talvez porque no início não tinha o Instagram, mas é uma coisa que entrou depois e aí a pessoa pode entrar nessas de se comparar.


Medir com a pessoa que gera menos lixo, a outra mais sustentável e entrar na sensação de escassez e ficar sentindo que não chegou lá ainda, que tá falando e se perdendo sabe?

Cada um de nós tem seus processo individual, todos estamos entre não saber nada e saber tudo então se sempre estaremos nesse lugar, independente de onde exatamente, sempre haverá algo a aprender.


Nunca vai ter absolutamente nada, mesmo que seja uma coisinha que você não considera que faz parte dessa sabedoria, é uma bagagem importante de vida.


Acredito que é melhor não ficar se comparando, você não sabe de toda a história da pessoa, contexto da vida dela, dificuldades e facilidades, processos de vida e aí você compara uma pessoa que começou a reduzir o lixo vários anos antes que você, é óbvio que ela vai ter alguma vantagem.

As coisas precisam de tempo pra acontecer, não só pra fazer coisas materialmente ou de dinheiro, mas especialmente pra você se adaptar mesmo, sabe?



Quais referências você indica aos leitores?


Cristal: Indico o livro O Bem Viver; o livro A Política Sexual da Carne, ainda não terminei mas já é um dos livros da vida; o livro How To Do Nothing que [Meu Deus] é dos livros preferidos da minha vida, tem feito muita diferença na forma de como vou encarar o mundo, após ele, sabe?


Eu gosto muito do podcast A terra é redonda, da revista Piauí, que também traz temas ambientais com uma discussão sempre muito interessante; tem também o podcast do Modefica que chama Politicamente incorreto e ambientalmente também.


Personalidades, recomendo demais a Marina Colerato, que traz reflexões sempre muito boas; o André Carvalhal e a Mariana Matija, fala em espanhol, mas dá pra usar o tradutor do IG., ela também é uma das minhas maiores inspirações que sempre se conecta com o que eu tô pensando, são pessoas que eu tô sempre ali futucando, pra adicionar mais nas coisas que eu já penso e que me ajudam a expandir.



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Agradecemos imensamente a participação da Cristal Muniz nessa entrevista inspiradora para a gente botar a mão na massa sobre as mudanças do mundo que ansiamos.


E a gente não pode deixar de falar do projeto da Cristal Muniz no Catarse, dá um pulo lá pra conferir, apoiar, se inscrever e ficar por dentro, aliás tem um grupo super legal no telegram pro pessoal compartilhar e embarcar juntos num planeta mais sustentável.

Blog Um Ano Sem Lixo (catarse.me)


Obrigada para você que chegou até aqui! =)

Até a próxima e leiam sempre!



LEIA MAIS

Segue os links das referências que a Cristal Muniz compartilhou com a gente:

Blog: Umavidasemlixo.com


Influencer: Lauren Singer (movimento zero lixo)


Livro: O bem viver - Alberto Acosta


Livro: A política sexual da carne - Carol J. Adams


Livro: How To Do Nothing - Jenny Odell


Podcast: de ciência da revista Piauí


Podcast: do Modefica - Politicamente incorreto e ambientalmente também


Personalidade: Marina Colerato


Personalidade: Andre Carvalhal - Mapeando novos caminhos para a moda e para o mundo


Personalidade: Mariana Matija - sostenibilidad + educación + creatividad

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